O lugar confortável é o mais difícil de deixar

Quem era · O que tensionou

Criada em Leopoldina, interior de Minas, Thais Farage descobriu a moda como possibilidade profissional dentro da faculdade de cinema da UFF. Formou-se, virou assistente de direção em longas-metragens, passou por direção de arte e figurino. Uma carreira em construção, num mercado difícil de entrar — e ela estava dentro.

E é exatamente aí que mora a armadilha que ela mesma admite: a posição era confortável. Não era infelicidade — era um desejo que não cabia no cargo. Quem já sentiu isso sabe: o incômodo mais difícil de justificar é o que aparece quando está tudo razoavelmente bem.

A pergunta que ela não fez (por sorte)

Como reenquadrou: a pergunta

A pergunta óbvia seria: "como recomeço do zero na moda?" — e o "zero" teria sido o preço. Estágio, base da pirâmide, anos perdidos.

A trajetória dela revela outra pergunta, muito melhor: "o que eu já sei fazer que a moda também precisa?"

A resposta estava no próprio currículo, mal etiquetada. Roteiro. Direção de arte. Figurino. Produção. O cinema tinha ensinado a ela o ofício de construir narrativa através da imagem — e figurino é, literalmente, vestir uma história. Ela não estava mudando de ofício. Estava mudando de tela: da projeção para a pessoa.

A travessia foi uma ponte, não um salto

Como reenquadrou: o movimento

Repare na engenharia da transição, começada em 2013. Ela não pediu demissão numa segunda-feira épica. Construiu uma ponte de menor custo: começou escrevendo sobre moda — colaborações para o site Petiscos, depois Harper's Bazaar e ELLE. Jornalismo de moda era o ponto exato onde o repertório antigo (contar histórias) tocava o território novo.

Ao mesmo tempo, pagou o pedágio de entrada sem atalhos: formou-se consultora em três escolas diferentes, fez pós em Estética e Gestão de Moda na USP e, em 2019, especialização em Estilo e Cor nos Estados Unidos. Repertório novo se compra com tempo e estudo — o que não se compra é o ativo que você já carrega.

A escada que ninguém vê no post de LinkedIn

Onde chegou

O que a história dela ensina de mais valioso, porém, vem depois da travessia. Porque a transição não terminou quando ela virou consultora — ela reenquadrou o próprio negócio, degrau por degrau:

Consultora — atendeu cliente final por quase uma década, vestindo de Emicida a Paola Carosella. Vendia horas. Empresária — formou equipe própria e abriu a Farage Inc, uma das primeiras empresas do país dedicadas a consultoria e produção de moda. Passou a vender método. Voz pública — em 2021, lançou "Mulher, Roupa, Trabalho", pela Companhia das Letras, e palestrou na ONU Mulheres. Reposicionou a moda de futilidade para lente de desigualdade de gênero — e a si mesma de prestadora para pensadora. Plataforma — no mesmo ano, parou de atender cliente final. Hoje conecta marcas e consumidores (Havaianas, Farfetch, Marisa), fala com 200 mil pessoas nas redes, escreve newsletter e constrói a primeira comunidade de moda do país.

Cada degrau é um reframe: de operadora para arquiteta, de quem executa para quem define como se executa.

O que sobra quando o setor muda

O padrão decodificado

1. O ofício viaja; o setor fica. Direção de arte virou consultoria de imagem. Roteiro virou narrativa de marca. Antes de qualquer transição, a pergunta é: qual é o seu ofício de verdade, dito sem o vocabulário da sua indústria?

2. Atravesse por ponte, não por salto. O jornalismo de moda foi o ponto de contato de menor custo entre os dois mundos — deu portfólio, rede e nome antes de exigir aposta total. Toda transição bem desenhada tem uma ponte dessas esperando para ser encontrada.

3. A transição não é um evento. É uma escada. Consultora, empresária, autora, plataforma: quatro negócios diferentes na mesma pessoa, um reframe a cada ciclo. Quem trata a mudança como destino para de subir no primeiro degrau.

E você? Qual é o seu ofício — dito sem o vocabulário da sua indústria?

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Nota editorial — As decodificações do Observatório são construídas a partir de informações públicas e representam uma interpretação analítica dessas fontes. Podem conter imprecisões de checagem ou de contexto. A produção do conteúdo conta com auxílio de inteligência artificial, com curadoria e revisão do The Reframing Project.